terça-feira, 27 de novembro de 2012



É isso aí...

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

E se eu te amasse um dia, pequeno e calmo, minúsculo e leve, no vento que desaprendeu o caminho, que vaga nos becos, que se perde nas curvas, que se espalha no rio, será que teus dedos descobririam meus cabelos, tuas mãos achariam minhas pernas debaixo do vestido, tua voz resistiria ao barulho das árvores? E se eu te amasse um dia, alto e amplo, grande e maior, junto ao céu, numa asa, contra o sol, solto e livre num vôo silencioso de pássaro, será que teus olhos se juntariam aos meus num horizonte improvável, teu riso seria alto outra vez menino, teu peito se encheria de felicidade inédita? E se esse dia não chegasse, será que um dia tu perceberias que tens de mim o vento, o caminho, os becos, as curvas, o rio, o céu, a asa, o sol, o vôo, o pássaro, o horizonte improvável, o riso, o menino, a felicidade esperando para ser?





Ticcia.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.


Lya Luft

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

As sem razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 4 de novembro de 2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

sábado, 27 de outubro de 2012

Querido,
Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.



Virginia Woolf
Da chegada do amor


Sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.
Sempre quis uma amor que elaborasse
Que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo
no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor
que coubesse no que me disse.
Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo
BOM DIA!
morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro
coisa da mesma embocadura
sabor da mesma golada.
Sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.
Sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.
Sempre quis uma amor
que não se chateasse
diante das diferenças.

Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar
o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.
Contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.
Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.
Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.
Sem senãos.
Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.
Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.
Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.

Sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.
Sempre quis um amor não omisso
e que sua estórias me contasse.
Ah, eu sempre quis um amor que amasse.



Elisa Lucinda

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.







Fernando Pessoa
(...) It's only half past the point of no return
The tip of the iceberg, the sun before the burn
The thunder before the lightning, the breath before the phrase
Have you ever felt this way?
(...)



Pink - Glitter in the air
“Como é estranha a natureza morta dos que não tem dor.Como é estéril a certeza de quem vive sem amor.”



Cazuza

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

E para encerrar essa noite de quinta, um vídeo/texto de primeira!



Sabe qual é meu sonho secreto? Que um dia você perceba que poderia ter aproveitado melhor a minha companhia.Que um dia imagine o quanto teria sido ótimo estar ao meu lado, mesmo quando eu estava gripada. No entanto, sei que você está a cada dia que passa mais fugidio. E eu me limito a me surpreender com as circunstâncias da vida que me levaram a viver esse papel: o da mulher que quer mais um pouquinho. Constrange-me existir esse personagem Chico Buarque, dolorida, bonita, sendo assim, meio tonta, meio insistente, até meio chata. Nunca precisei aborrecer ninguém antes, então atuo por instinto, cansando-me facilmente. E que fique claro que não é por estar você dessa forma, tão esquivo, que o desejo tanto. Desejo-o porque desejo. Estúpida. Latina. Bethânia. Ainda creio que você, quando eu menos esperar, possa me chegar com um verso em atitude.




Fernanda Young
"- Você tem um cigarro?
- Estou tentando parar de fumar
- Eu também. Mas queria ter uma coisa nas mãos agora
- Você tem uma coisa nas mãos agora
- Eu?
- Eu! "






Caio Fernando Abreu
Ale,

Nos amamos como doentes terminais. Como se houvesse pouco tempo de vida. Como se fossemos gêmeos do fim. Como se o diagnóstico substituísse a certidão de nascimento.

Mas não há doença, não há brevidade. Há uma puta saudade antes mesmo de terminar o dia junto.

Temos uma naturalidade das coisas ditas, das coisas feitas, das coisas findas, que é difícil até fazer segredo. Preciso me esforçar para não contar uma lembrança e reservar algo para depois.

Quando você me olha, você me pertence. Quando olho você, eu lhe pertenço. O desespero não interrompe nosso riso. O choro não interrompe o nosso abraço.

Não adiamos o que é bom porque o ruim chegou antes.

Você é meu primeiro amor adulto.

Falamos sem parar com uma franqueza insuportável, beijamos sem parar com uma franqueza insuportável, transamos sem parar com uma franqueza que seria insuportável em qualquer momento anterior de nossa vida.

Franqueza é urgência, Ale.

Estamos adoecidos de tanta saúde.

Beijo
Teu
Lobo



Fabrício Carpinejar.
E o que resta agora é aquela saudade que rasga...









Porque todas as vezes que vieste, abria-se um sorriso no dia e o tempo era ao revés e manso e branco e tudo mais já não envelhecia e algo de insano permeava as coisas e meus cabelos eram novamente longos e tuas mãos eram outra vez macias e eu te olhava nos olhos sem precisar dizer que te amava e tu entendias.

Porque todas as vezes que me amaste, rompiam-se os derradeiros do mundo, era eu uma menina bêbada da mais louca alegria e tu me abraçavas como quem acarinha asas de um pássaro mudo e eu te beijava a boca como quem se agarra tonta a um infinito de tudo.

Porque todas as vezes que voltaste, fenecia a razão embotada na memória dos sentidos, eu te dizia mil vezes que a vida muita em mim sempre fora tua e que de modo algum deverias nos ter perdido.





Ticcia